sábado, 21 de novembro de 2015

CAPÍTULO 15- TODOS QUEREM ENSINAR ALGO QUE NINGUÉM PODE APRENDER

Empreendedorismo não se ensina, mas o que se aprende em "empreendedorismo" é fundamental.



Olá, criaturinha sublunar! Imagine a seguinte cena: pode ser num picadeiro ou na cozinha do seu humilde bangalô. Você fez um daqueles cursos de culinária. Caríssimo! Seu professor — fresco & arejado — ensinou-lhe todos os macetes da culinária ocidental, oriental, universal e de outras partes do cosmos. Até seu leite fervido agora é gourmet. Você convidou seus miguxos para almoçar na sua casa. Como entrada, você vai preparar alguma gororoba impronùnciável ao molho de arenque; e como sobremesa, você vai fazer outra gororoba igualmente esquisita, mas com passas ao rum. ¿Os melhores ingredientes disponíveis? — confere! ¿A receita posta à altura dos olhos? — confere! ¿Tudo pronto? Beleza! Minutos depois, sua coninha está imunda; há arenque até na saboneteira... e você está diante duma meleca que nem o totó aceita comer. Cachorro do Satanás!

¿O que deu errado, ó criança? ¿Por que os máster-bláster chefes-de-cozinha da televisão conseguem fazer aquilo e você nunca conseguirá? Resposta: eles têm uma coisinha chamada conhecimento incorporado. "Vade-retro!" Calma. Deixa eu explicar: existem dois tipos de conhecimento: 1) o explícito ou codificado, que está nos livros, cursos, artigos, patentes, manuais e naquela receita que você tentou seguir; e 2) o conhecimento incorporado, que corresponde às habilidades, manhas, técnicas, segredos, paranauês, ziriguiduns, telecotecos & balacobacos dos profissionais experientes. Apenas a primeira modalidade de conhecimento é transmissível pelos métodos clássicos de ensino. Já a segunda — justamente aquela que é responsável pela diferença brutal entre o trabalho dum amador e o trabalho dum profissional — não se pode transmitir tão fàcilmente.

Quer dizer: pode sim, mas não pelos métodos escolares clássicos. O mesmo se dá com atividades artísticas que são parentes distantes da culinária. Se o próprio Beethoven baixasse num terreiro de umbanda — imagine! — e lhe desse aulas de piano por meses a fio, isto não-necessàriamente o tornaria um concertista excepcional. A lista de exemplos pode se estender ao infinito. A coisa se complica ainda-mais quando notamos que algumas pessoas têm a vocação (sentem-se chamadas para fazer aquilo), mas não têm o talento (não conseguem desenvolver suas habilidades); ou têm o talento, mas não têm a vocação — o que é ainda mais triste. Inclino-me a concluir, portanto, que as habilidades necessárias ao empreendedor são do tipo incorporado: elas não podem ser ensinadas em cartilhas. Mas então, ¿o que se ensina nas disciplinas de empreendedorismo?

A febre-tifóide do empreendedorismo e das microempresas fez pipocar na década passada uma multidão de disciplinas, workshops, métodos, livros e cursos supostamente ensinando malabarismos para quem quisesse se transformar no próximo Steve Jobs. Mas muita calma nessa hora! Certamente há oportunistas e estelionatários em toda parte — sobretudo quando há promessas e dinheiro envolvidos. Mas a esmagadora maioria dos profissionais que eu conheço no meio empreendedor são pessoas honestas, competentes, qualificadas e comprometidas. Porém, o que essas pessoas ensinam em seus cursos não é, de maneira nenhuma, empreendedorismo; é sim administração para microempresas. Não que isto não seja importante; é fundamentalmente importantíssimo! — pelas razões que eu darei a seguir. Mas entendam: isto não é empreendedorismo!

Geralmente, o que os professores de "empreendedorismo" transmitem aos seus pimpolhos é uma combinação dos seguintes elementos: 1) ferramentas e estratégias de administração adaptadas às microempresas, embora criadas para as grandes; 2) sermões e ladainhas motivacionais e/ou apocalípticas sobre oportunidades desperdiçadas, necessidades insatisfeitas, nichos de clientes, etc.; 3) análises de casos de sucesso ou de fracasso de empreendedores; 4) exercícios e dinâmicas para o despertar da criatividade e do pensamento "fora da caixa"; 5) modelos e técnicas como o mínimo produto ou serviço viáveis, o oceano azul, a startup enxuta, a inovação disruptiva, a pivotagem, etc. Repito: todos esses conhecimentos são fundamentais: eles cobrem aspectos da formação dos administradores que costumam ser negligenciados pelas universidades.  

Segundo a Agenda Estratégica das Micro e Pequenas Empresas (2011-2020), elaborada pelo SEBRAE, esses mico e pequenas empresas correspondem a 98% dos negócios existentes no Brasil. Eles são responsáveis por 21% do PIB e 52% dos empregos com carteira assinada. Além delas, temos um exército de 10,3 milhões de empreendedores na informalidade. São seis milhões de negócios empreendedores só neste país! Pois muito bem. Agora vejam: as faculdades de administração, engenharia e contabilidade continuam formando gestores para atuar nas... grandes empresas! Não é à toa que setores estranhos a essas áreas, como o bancário e o hospitalar, estejam absorvendo esses profissionais sobressalentes, ao passo que as microempresas são administradas por amadores desastrados, muitas vezes tendo de aprender na paulada o que não viram na faculdade. 

"Mas ora essa", o leitor deve dizer, "se as técnicas de gestão que eu aprendi na faculdade funcionam nas grandes empresas, ¿por que elas também não funcionariam nas microempresas?" Pois é, leitor! Aí é que está a treta: elas não funcionam ali. Eis a premissa suicida dos cursos universitários brasileiros: estamos formando profissionais para empregos que não existem mais; e as empresas existentes (98% delas, ao menos) estão sem gestores capazes. Isso ocorre porque as escalas são diferentes, as métricas são diferentes, as abordagens são diferentes, as dificuldades e os problemas enfrentados pelos empresários não são os mesmos nas grandes, médias, pequenas e microempresas. É isto o que me leva a crer que os cursos de empreendedorismo vêm desempenhando uma função até mais importante do que aquela que seus responsáveis crêem desempenhar.

Então ficamos assim: o empreendedorismo não é uma coisa que se ensina nos bancos da escola. O que as disciplinas com esse nome geralmente oferecem aos estudantes são ferramentas voltadas à criação e administração de microempresas. As faculdades, por sua vez, têm formado profissionais para grandes empresas — que são a minoria no mercado. Por sua vez, os empreendedores e microempresários acabam descobrindo, amargamente, que as teorias mirabolantes que seus professores lhes ensinaram na faculdade podem virar pó diante do terrível desafio que é gerir... um carrinho de tapioca! É aqui, então, que uma mudança drástica de escalas pode salvar o negócio. É aqui que entram aquelas ferramentas & estratégias que, erròneamente, são confundidas com o empreendedorismo em si. Mas afinal, leitor, você deve estar se perguntando ¿como poderei me tornar um empreendedor, já que isto não se ensina? Aguarde: veremos no próximo capítulo.

Até-mais-ver!

¿QUEM É JOHN GALT?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

POSTAGEM-RELÂMPAGO 12


1- Você está perdido porque seu modelo-de-negócio tem incógnitas e variáveis em excesso e, por causa delas, você nem sabe por onde começar sua linda empresa. 

2- Você está se dando desculpas ordinárias relativas ao trabalho, à faculdade e à vida pessoal para adiar para as calendas a execução dos seus planos. Tome vergonha!

3- Olha... você até que tem uma boa idéia (ou acha que a tem), mas não sabe como fará para que ela lhe renda algum dinheiro. Afinal, dinheiro é para os fracos, né?

4- A execução dos seus lindos planos exige o domínio técnico de outras áreas que você não conhece. E você não conhece as pessoas que poderão ajudá-lo. Que pena!

5- Você é um paranóico que mantém em segredo sua idéia milionária. No fundo, seu medo não é que os outros a tomem, mas que eles lhe digam a verdade: sua idéia é tola!

6- Ou muito pelo contrário: você está ouvindo palpites demais de pessoas que não têm o perfil do seu cliente. Por isso, seu protótipo está na qüinquagésima versão beta.

7- Você não percebeu ou não quer reconhecer, mas deixa o titio-aqui lhe dizer uma coisa: sua idéia é inviável — tecnològicamente e econòmicamente. Desapega! Desapega! 

8- Você e seu sócio estão puxando a empresa para segmentos diferentes do mercado. Vocês não conseguem criar uma ponte ou bater-o-martelo numa só direção. 

9- Você é uma galinha carijó aterrorizada pelo bafo gélido do desconhecido, soprando na sua cacunda. Eu não sei se galinhas têm cacunda; mas que você está com medo, ah está!

10- Você ouviu falar em timing ideal para o lançamento dum produto; e você acha que sua brilhante intuição de principiante dar-lhe-á o sinal para uma entrada apoteótica.

11- Sua idéia começou magrinha, simples, viável e enxuta: perfeita para levar na mochila! Depois de muito brainstorming e megalomania, olhe para ela: é o King Kong!

12- Você parece aqueles tiozinhos deprimidos da fila do café, quando dizem assim: "quando eu me aposentar, vou aprender a tocar piano, viajar, escrever um romance..."

13- Você já poderia estar ganhando dinheiro com uma versão enxuta do seu produto ou serviço. Mas não: se Estêvão Jobim quer ser Steve Jobs, ele será Steve Jobs, né?

14- Sua vida é mais enrolada e tensa que uma bobina de Tesla. Eu também não sei como você daria conta das finanças duma empresa. Uma dica: comece limpando seu quarto.

15- Você ainda não consegue responder às seguintes perguntas-premissa sobre sua idéia: ¿o que ela é? ¿para quem será? ¿por que ela existe? ¿quanto custará?

16- Você passou os últimos anos tendo "idéias", mas até agora você não fez um puto! dum orçamento, nenhuma pesquisa-de-mercado, nenhum protótipo... Nada!

17- Seu plano-de-negócio já tem mais páginas que As mil-e-uma noites e é tão chato quanto o Código Tributário. ¿Que tal pôr alguma coisa dali em prática? Queime-o!

18- Você ainda espera que um investidor de armadura brilhante chegue em seu cavalo branco e o resgate da torre do emprego formal. Continue esperando, Rapunzel!

Até-mais-ver!

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

FRASES DA SEMANA 9


“O CAPITAL-ANJO TEM ESSE NOME NÃO PORQUE ELE VAI GUARDÁ-LO DOS PERIGOS, MAS PORQUE ELE VAI DEIXÁ-LO COM A CONSCIÊNCIA PESADA.”

Professor Venerando Galáctico, astrólogo, faquir e crítico literário.


“QUANDO MINHA EMPRESA ESTÁ À BEIRA DA FALÊNCIA, EU NÃO PENSO EM CONSULTAR GURUS; EU SÓ PENSO EM ENTORNAR UNS GORÓS.”

Doutor Benemérito Cevada, enólogo e terapeuta motivacional. 
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