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sábado, 9 de janeiro de 2016

CARTAS PARA JOVENS EMPREENDEDORES 3

São Bernardo do Campo, 9 de janeiro de 2016.


Presado (sic) Cássio,


¿Você já pulou de pára-quedas? Eu não; mas posso perfeitamente me colocar no lugar e entender o que se passa na cabeça de quem já tenha pulado. Ainda no avião, o oba-oba do piloto, dos amigos e do instrutor deve mandar galões de adrenalina direto para o seu sangue. O corpo inteiro responde e se prepara para a experiência mais significativa e emocionante da sua vida. A porta do avião se abre; abaixo, o abismo. A ventania quer sugar seu corpo para fora, e o entusiasmo também. Passam pela sua cabeça milhões de coisas que podem dar errado; mas, no equilíbrio entre a vontade e o cagaço, a vontade vence. Então você salta.

Milésimos de segundos após o salto, você pensa que aquela foi a besteira mais estúpida que você já fez na vida. Bate um arrependimento. Nesse exato segundo, você deve pensar: "¿Onde é que eu estava com a cabeça? Tudo bem: o avião não era a coisa mais segura do mundo; seguro mesmo é andar com os pés bem fixos no chão, e olhe lá! Mas saltar dum avião rumo no vazio! ¿Onde é que eu estava com a cabeça?" Mas daí você sente aquele volume que carrega nas costas -- o pára-quedas! -- e tenta se desligar um pouco dos riscos, para poder aproveitar a experiência. ¿E quer saber duma coisa? Aquilo é muito-muito-muito bom!

Sem compromisso, sem sèriedade, sem protocolo, sem segurança... Só você e a gravidade fazendo o servicinho sórdido. Fora isso, você está livre — delìciosamente livre, perigosamente livre, irresponsàvelmente livre. Há algo de tóxico nessa emoção, que você consome como um vìciado. Mas após alguns segundos divertidos encarando o abismo e a morte, volta-lhe a assombrar um pensamento sinistro: "¿mas e se o pára-quedas não abrir?" Com o perdão do trocadilho, a essa altura, você já deve ter atingido a velocidade terminal: a resistência do ar não permitirá que você caia mais depressa.  É só isso.


A coisa perde um pouco a graça; e é nessa hora que um visitante indesejado retorna: o medo. ¿Entendeu, Cássio, as entrelinhas? Você deve estar se perguntando aonde eu quero chegar. Veja só: você me mandou uma mensagem pedindo conselhos. Eu, como de costume, reparei na recorrência de algumas palavras; dentre elas, a conjunção 'se' apareceu vinte-e-nove vezes num texto de menos de mil caracteres. Mas eu senti falta duma palavra em especial — que você sonegou o quanto pôde. Falo da palavra 'medo'. Assuma, Cássio, você está com medo! Você está morrendo de medo; e é natural sentir medo.

É, meu caro... Eu falei do salto de pára-quedas porque sei que essa é uma experiência familiar para você, né? E deixa eu lhe contar uma coisa: a montanha-russa de emoções na cabeça dum saltador é a mesma que domina os pensamentos de quem empreende pela primeira vez. A seqüência é inclusive a mesma: a euforia inicial, a adrenalina da iniciativa, o milissegundo de arrependimento e, depois, a aquela maravilhosa sensação de liberdade — só azedada pelo medo. No caso, medo de perder dinheiro, medo de fracassar e ser humilhado, medo do sofrimento e da necessidade, medo de sentir medo, etc.

Enfim, Cássio: você está com medo. Você me pediu um conselho, e eu lhe respondo com um diagnóstico. Espero que você não me mande outra mensagem só para negar essa constatação óbvia. O escritório em que você trabalha hoje é o "avião seguro" do qual você não quer saltar. Acontece que não é você quem estrá pilotando esse avião, certo? Pelo menos, o salto para o vazio é você quem controla — tirando, é claro, as vàriáveis que, no exemplo que citei, representam a gravidade. O que você precisa decidir agora, meu caro, é se você fará do seu medo um radar que detecta riscos ou uma algema que o mantém preso.


Saudações terrícolas e silvícolas. Vida longa & próspera.


Fernando.

sábado, 2 de janeiro de 2016

CARTAS PARA JOVENS EMPREENDEDORES 2

São Bernardo do Campo, 2 de janeiro de 2016.


Caro Fábio,


Bom... Eu não sei se entendi o conteúdo da sua cartinha. Vejamos. Eu não sou técnico balístico da vida alheia para dizer a que alvos as pessoas deveriam apontar o cano dos seus talentos. Mas já que você pediu meu humilde conselho, agüente-o! Aliás, eu mencionei o conteúdo da sua mensagem porque ela me pareceu oscilar bastante. Diga-me uma coisa: ¿que diabos a antipatia entre sua namorada e sua mãe tem a-ver com o fato de você não agüentar mais este país? (Eu tenho uma opinião mordaz sobre homens que vivem sob o chicote da mamãe ou da namô. Você não iria querer ouvi-la). Por isso, eu repito: ainda que eu não seja técnico balístico para dirigir sua pontaria, tendo em vista seu grau de desnorteio e confusão, acho que alguma orientação não vai lhe fazer mal. Como diria o coelho de Lewis Carroll, para quem não sabe o caminho, qualquer caminho tá valendo.

A sua carta só tem uma constante, meu caro Fábio: você usou a palavra 'risco' onze vezes em duas páginas e meia. E sim, você está certo: nove entre dez gurus falam mais dos riscos do que da grana que podemos conseguir abrindo o próprio negócio. Autores honestos não douram-a-pílula sobre esse ponto. E sim, você está certo: os melhores métodos que já foram inventados para empreender só são os melhores porque focam na detecção e na redução desses riscos. E sim, você está certo: todos — eu repito: todos! — os empreendedores bem-sucedidos quebraram-a-cara ao menos uma vez antes da vitória final. A falência, aliás, é um curso intensivo que dói no bumbum. Sim, meu caro Fábio. Você está cagado de razão. Só que tudo-isso é apenas a metade da história. Então deixa eu lhe contar um segredinho macabro (música de suspense): o emprego formal também tem seus riscos!

Você me diz na carta que está no penúltimo ano de design, né? (A-propósito, ¿você já deu a má-notícia para sua mamãe?) Você, como quase todo estudante universitário brasileiro, acha que vai sair da faculdade com seu diplominha — todo alegre & pimpão — e encontrará um exército de empresários esperando por você na calçada. Pois é, Fábio... Foi essa a lenda que sua faculdade lhe contou e repetiu durante os últimos três anos. Eu não quero ter a fama de estraga-prazeres, de empata-surubas, mas este é o primeiro risco oculto que você assumiu (sem saber) quando entrou na faculdade: o risco de não encontrar emprego depois de formado. E tem mais: a não ser que os alienígenas intervenham, teremos pela frente mais três anos dum governo corrupto, estatista, populista, autoritário, perdulário, incompetente e interventor. E isso só piora as coisas o seu lado.



Mas... suponhamos que você encontre emprego. ¿Você acha que seus problemas acabarão? Veja essa lista: 1) há o risco de você não gostar do seu chefe nazista, dos seus colegas tóxicos ou do ambiente-de-trabalho, e isso começar a prèjudicar seu desempenho, tornado-o um sujeito infeliz; 2) há o risco de você ser contratado para desempenhar uma função totalmente diferente daquela para a qual você foi formado; 3) há o risco d'a sua contratação ser temporária, e você não saber disso, porque ninguém vai querer desmotivá-lo contando-lhe a verdade; 4) há o risco d'a empresa ser vendida ou fundida, passando para as mãos de donos que talvez queiram cortar cargos sobrepostos e redundantes (o seu, por exemplo); 5) há o risco de você bater-de-frente com a política dos patrões, as eminências-pardas, os protegidos, os estrelinhas e, mesmo sendo talentoso & competente, ter a cabeça cortada.

¿E você pensa que acabou? Não! Só acaba quando o diabo diz amém! Trabalhando para terceiros, você sempre estará à-mercê dos caprichos e das decisões (às vezes, burras) de pessoas que você não conhece nem controla. Oras, ¿o que é o risco senão um conjunto de fatores desconhecidos e incontroláveis? E o pior é que essas pessoas estarão assumindo riscos por você, em seu nome, em seu lugar. Você crê que as decisões delas, sendo motivadas pelo auto-interesse, serão sempre eficientes e racionais. Mas acontece que o ser-humano não funciona assim. Calma: tem mais! Se tudo der certo e você arranjar um bom emprego em plena crise, não se esqueça de que você atuará num setor — o design — especialmente sujeito a modismos oscilantes. E este é mais um fator de risco que eu consideraria. A estética é uma das primeiras coisas que as empresas eliminam quando o cinto aperta.

Ah, Fábio, Fábio, Fábio... Agora você deve estar pensando que eu lhe escrevi essa longa resposta para desmotivá-lo. E você está certo! (Brincadeirinha). Eu só quis lhe mostrar que os riscos dum "trabalho decente" (como diz sua mãe) são tão grandes ou maiores que a decisão de abrir o próprio negócio. Porque neste último caso, você ao menos estaria assumindo riscos que você-mesmo poderia descobrir e controlar. Ninguém iria esconder o jogo de você. Ninguém iria dar tapinhas na sua cacunda enquanto prepara sua demissão nos bastidores. Ninguém iria ocupar os degraus da sua carreira com aspones & parentes, numa versão sórdida & petista de Monopoly corporativo. ¿Você entende do que eu estou falando, Fábio? ¿Você percebe que o menos importante aqui é a porcaria do dinheiro; que o mais importante é o mérito, o pleno exercício do talento, a dignidade e a realização?


Decida-se. Tome tenência. Abraços.


Fernando.

sábado, 26 de dezembro de 2015

CARTAS PARA JOVENS EMPREENDEDORES 1

São Bernardo do Campo, 26 de dezembro de 2015.


Prezada Andréia, 


Primeiramente, devo manifestar minha surpresa pela forma como você resolveu se corresponder comigo: uma carta! Em pleno século XXI, você me manda uma carta! E manuscrita! Onde já civil algo tão trabalhista! Desci para verificar a correspondência: boletos, contas, mala-direta, as ameaças da Receita Federal, etc... e daí me deparo com sua carta. Claro, você não vai se incomodar se eu também respondê-la assim, com uma carta. 

Você externou naquelas páginas algumas inquietações comuns à sua idade. Em certas passagens, eu me vi falando através das sua caligrafia desenhada. Também tive vinte anos. Também passei por senzalas de luxo. Também me senti o sub do sub. Também corri atrás do próprio rabo para descobrir, ao final de dois anos, que acima do sub, ainda havia outro sub ainda mais sub. (Não sei se você está me entendendo; eu temo estar sendo impressionista). 

Mas vamos ao âmago da questão. Você me perguntou na carta quando é o momento certo para se chutar o pau da barraca. (Bom... Antes-de-mais-nada, que legal que você ainda tenha uma barraca disponível para ter o pau chutado — ainda que seja uma barraca de camping; e ainda que o pau é que às vezes chute você)! Mas, sinceramente, eu acho que quem vai lhe responder essa embaçada pergunta não sou eu; é seu despertador. Sim, Andréia: seu despertador!


Um dia, ele vai começar a tocar diferente, se é que já não começou a fazê-lo. Antes, o som que você ouvia era o duma trombeta marcial, convocando-a para a batalha. ¿Você se lembra, Andréia, da disposição com que acordava todas as manhãs para trabalhar, nos primeiros dias? Parecia que uma mola a arrancava dos cobertores. Tóin! Depois, imagino eu, seu despertador passou a soar diferente, como o timbre monótono duma sirene de fábrica. 

A partir desse dia, você passou a calçar os sapatos e a vestir-se de maneira màquinal e, como uma zumbi lesada, passou a chegar ao trabalho vazia de si-mesma, sem se dar conta, só para cumprir a rotina e pagar a faculdade no final do mês. Pelo que você me disse na carta, acho que seu despertador toca agora... ouça-o: é como um dobre de finados! ¿E você ainda me pergunta o que fazer da sua "vida"? Bom... antes-de-mais-nada, você precisa sair dessa morte.

¿Você sabe por que os programas de estágio têm dois anos de duração, Andréia? Não é para soncronizá-los com os cursos tecnológicos. Não é para que um estudante de graduação, após resistir ao segundo ano, possa ainda encontrar um estágio no qual trabalhe mais dois. Não! Os estágios têm dois anos, imagino eu, porque este é o máximo de tempo que a sua geração agüenta ficar fazendo a mesma coisa. E eu não a culpo por isso, minha cara zumbi.


Não sei se respondi sua pergunta. Ouça o que seu despertador lhe diz. Em todo caso, boa sorte!


Fernando.
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